Dizem (sobre Caetano gravar músicas americanas) ser como levar areia para a praia, mas nesse caso é como se ninguém tivesse jamais olhado ou sentido antes a areia desta forma.
A piada sobre a Marilyn Monroe é hilária!
O filme e Caetano lidam com toda a questão de como, como? o que? quando?, o que nós, nós que amamos a arte de outras culturas, o que nós fazemos depois que fomos influenciados e que ingerimos isso? Nós somos o que comemos – é verdade! Mas é uma corda bamba, um caminho complicado e inevitável.
Alguns dos meus amigos americanos ficam confusos com alguns dos projetos de Caetano – alguns deles tem problema com a beleza. Americanos, e muitos europeus, tem problema com a beleza – eles presumem que é intrinsecamente rasa, superficial, necessitada de “margem” (o que quer isso signifique) e, portanto, pouco interessante. Eu não – aprendi, graças ao Caetano e à outros artistas brasileiros – embora eu deva também creditar à Celia Cruz – que a beleza na performance e na arte pode ser tão radical e transformadora quanto a feiúra. Assim, penso que os americanos não tem, de fato, um problema com Caetano ou outros cantando em inglês ou cantando músicas americanas, mas tem às vezes um problema com o quão belas as músicas soam.
É talvez um legado da antiga boemia vanguardista européia do século XX – para chocar os burgueses é pretenso ser arte de boa qualidade. Bem, deixe-me opor à essa attitude ao dizer que às vezes uma praia, uma pedra, uma mulher, um homem, uma criança ou uma canção são belos e se podemos vê-los e ouvi-los e amá-los nós fomos ou poderiamos ser transformados tanto quanto poderiamos ser por algo repulsivo. E não é isso que os boêmios desejavam? O que falta aos burgueses são ouvidos e olhos que permitam transformação, portanto a imperfeição não é da mulher, do homem, da criança ou da pedra, mas da percepção.
Agora, de modo pragmático, eu percebo que há às vezes, sem dúvida, ironia na escolha que Caetano fez dessas canções americanas ou até mesmo daquelas associadas ao México ou à Venezuela no Fina Estampa – mas ao menos ele me mostrou que pode haver ironia e amor – ao mesmo tempo – nessas músicas ocasionalmente “kitsch”. Ambos podem coexistir. A música que Almodovar fez Caetano cantar é o cliché de todo restaurante mexicano cafona, pareceria esgotada, sem valor, mas Caetano a ressuscita e, em vez de darmos risada, nós choramos ao ouví-la. Esse é o ponto em que a verdade do coração triunfa sobre o “kitsch”. (Ah, tem outro filme de Antonioni que adoro – acho que se chama “La Notte” – em que há uma incrível cena de uma festa e muitas do desenvolvimento utópico fora de Roma.)
Eu aprendi com esse homem, e continuo aprendendo.





